2 de setembro de 2009

Agora


Olho ao redor e não vejo estradas.

Há trechos de chão batido, onde os pés de muitos que já passaram antes fazem com que a grama não cresça mais.

Mas não há estradas. Há o horizonte. À frente, não posso ver mais claramente além do amanhã. Além dele, o incerto. Para trás, o ontem é só uma lembrança. Jamais um destino. Antes dele, só há os caminhos que me fizeram chegar até aqui.

Qual direção seguir? Sigo os passos que vieram antes? Qual seria o caminho mais fácil? Qual seria o mais prazeroso? Qual seria o mais rápido até meu destino? Se é que algum dia irei chegar a um destino... Se é que há um destino...

Vou traçando a minha rota. Vou riscando o meu mapa. Mas não há estradas... Sempre possível mudar de direção. E talvez, por que não, dar alguns passos para trás.

Caminho sozinho. Ainda vou cruzar com outros viajantes. Vou trombar com alguns. Vou acompanhar outros. Mas no fundo mora a certeza de que, para cada um, essa é uma jornada pessoal.

E o tempo segue inexoravelmente seu curso. Não há como perdê-lo. Ele não é meu. Ele só me lembra que tudo é mutável. Tudo se encerra.

Sou? Ou estou? O tempo é agora.

24 de agosto de 2009

Volta às aulas

Depois de cinco anos, estou eu de volta às aulas. E dessa vez sinto que é completamente diferente. Talvez por ser um assunto que eu realmente amo. Talvez porque desta vez não há nenhuma relação com trabalho e obrigações. Mas o fato é que as sete horas e meia dentro da sala de aula, por incrível que pareça, passaram rápida e agradavelmente.

O curso foi adiado em uma semana. Portanto tive as primeiras aulas neste sábado. No período da manhã a aula foi de Produção. Quando estamos lá, sentadinhos com a nossa pipoca na sala de exibição, não fazemos idéia do tamanho do esforço necessário para que tudo aquilo funcione. Fazer cinema não é só arte. Tem o lado do negócio, até mesmo quando o filme não é feito para dar lucro.

Deu pra perceber que produção é para poucos. Tensão total para fazer toda a engrenagem funcionar! A professora, Thais Canjani, que entre outros participou de "Bicho de Sete Cabeças", é ligada no 220. Mal conseguia completar uma idéia sem se interromper e começar a falar de outra!

De tarde a aula foi sobre Roteiro. Já deu pra ver que é muito grande a diferença entre um texto literário e um texto de dramaturgia. Tudo tem que ser escrito pensando em imagem e som. Nada pode ficar subentendido em palavras.

E o roteirista precisa praticar o desapego. Seu texto possivelmente não vai virar o filme que ele imaginou. O diretor irá colocar a sua visão naquele texto. Enquadramentos, atuações, sons, luzes... tudo irá formar uma experiência que muito provavelmente é diferente da que foi inicialmente imaginada.

E como primeira lição de casa, preciso entregar na semana que vem uma sinopse de um roteiro. A sinopse precisa em poucas linhas apresentar o protagonista, seus objetivos, suas motivações e seus obstáculos. Vamos ver no que vai dar!

Todos os 25 alunos irão submeter seus roteiros para apreciação. Destes serão escolhidos 4 ou 5 que serão produzidos no decorrer do curso.

14 de agosto de 2009

Aaaaaaaaand... Action!

Quando eu estava lá pelos meus 15, 16 anos, volta e meia eu fazia uns filmes com os meus amigos. Não era nada muito elaborado. Mas a gente se divertia fazendo. E dado o nível da tecnologia da época e nossa total ausência de qualquer noção sobre técnica, até que conseguimos fazer umas coisas legais. Gostaria de poder rever estas "obras" mas não é possível já que nossa mente adolescente imediatista concluiu que valia mais a pena usar as fitas para gravar o Superbowl entre Bills e Redskins e outros eventos imperdíveis.... *sigh*

Nessa mesma época tive que começar a pensar no que fazer quando terminasse a vida boa no colégio. Pensei em fazer faculdade de cinema. Achei que não ia dar certo. Prestei vestibular pra publicidade. Acabei fazendo direito.

Eu sempre gostei muito de cinema. Porém minhas opções me levaram para longe dele. Continuei mero espectador. Daqueles que gosta muito, assiste tudo - do trash ao cult - e que quando gosta assiste várias vezes. Mas só espectador.

Mas amanhã vou começar um curso de cinema! E, se tudo der certo, daqui uns três meses vou mostrar aqui o meu curta, que vai ser resultado final desse curso!

Enquanto isso, deixo aqui um ótimo curta, que ganhou um dos prêmios em Cannes este ano. É muito bom e mostra bem como anda a nossa comunicação nos dias atuais.

Desculpas antecipadas por não colocar o video na página, mas o tamanho não é compatível com o layout. Cliquem aqui pois vale a pena!

12 de agosto de 2009

Diário de bordo - 25/08/2008

Dia de trabalho para Luis e Theres. Normalmente eles vão de bicicleta até a estação de trem. Mas como eu iria também, saímos um pouco mais cedo e fomos a pé.

Compramos o café da manhã na estação, enquanto esperávamos o trem de 7:20. A pontualidade é impressionante. Eles não precisam se preocupar com atrasos, trânsito, nada disso. Vão sentadinhos no trem, tomando seu café e lendo o jornal do dia e sabem direitinho a hora que devem sair de casa e que horas vão chegar no escritório.

O Luis me deu umas dicas e eu desci na primeira estação de Zürich (Stadelhofen). Fui até o lago, sentei num banquinho e comecei a tomar meu café da manhã. Um cisne apareceu e eu dei uns pedaços de pão. Mas o bicho começou a ficar meio bravo. Resolvi sair dali.

Ainda era muito cedo. Estava um pouco frio e a cidade ainda começava a funcionar. Andei um pouco pelas margens do lago. De um lado fica a costa dourada - o lugar onde o sol bate e as casas são lindas e caras. Do outro lado fica a costa do espirro - o lugar onde o sol nunca bate e as casas são lindas mas mais baratas.

Segui andando pelas margens do rio Limmat, conhecendo e fotografando Zürich até chegar na Rathaus - antigo prédio da prefeitura. A essa altura o sol já tinha aparecido e estava mais quente. Ainda era bem cedo e havia alguns velhinhos pescando no rio. Fiquei ali sentado, olhando a cidade se movimentar, lendo o meu livro e pegando um pouco de sol.

Dei uma olhada no guia e resolvi seguir o rio. Cruzei a ponte até a Platz Promenade para ver de perto o prédio do Schweizerische Landesmuseum. Depois segui andando pelo parque com a minha mochila nas costas. Percebo uma moça me seguindo... Ela passa olhando e continua. Dali a pouco volta. Estava me cercando. Veio falar algo em alemão e eu logo respondi no melhor vernáculo de Goethe:

- Ish ispreske kaine dóitch...

- Do you have marijuana? - Pergunta a moça em inglês fluente.

- No... errrrr.... sorry... - Respondo meio surpreso.

- Anything else?

- No, nothing at all.

- Do you know where can i find?

- No, i´m sorry. I´m not from Zürich.

- Oh... OK. Bye - Diz a moça decepcionadíssima.

- Bye... err... Good luck...

Mais tarde o Luis me explicou que geralmente os traficantes andam nos parques com uma mochila nas costas!

Continuei seguindo o rio. Iria me encontrar com o Luis para almoçar então não poderia demorar. Nas margens do rio vi alguns terreninhos bem pequenos com jardins, hortas, pomares, churrasqueiras. Alguns até tinham cabanas. Depois fiquei sabendo que são espaços alugados pela prefeitura para pessoas que moram em apartamento mas querem ter o seu quintal...

Almocei pizza com o Luis e a Moenke, uma alemã que morou no Brasil dando aula de línguas. Sempre corrigia o Luis quando ele falava português errado!

Peguei um bonde de volta até a Hauptbanhoff. A tarde fui conhecer o centro de Zürich. Comecei por Lindenhof, uma colina onde a cidade foi fundada pelos romanos. A vista é bem legal. Mas o calor estava de matar. Fiquei ali lendo um pouco e vendo algumas pessoas jogarem xadrez gigante enquanto descansava.

Depois fui andando meio sem destino pelas ruas até chegar na Paradeplatz, onde estão as sedes dos maiores bancos. Aproveitei pra dar uma olhada na famosa confeitaria Sprüngli, cuja vitrine lembra mais uma joalheria. Ainda tive tempo e conhecer a bela igreja protestante Grossmünster e dar umas voltas pelas ruas medievais do antigo bairro Niederdorf.

No fim do dia encontrei o Luis e fomos comer o típico bratwurst com cerveja. É engraçado. A salsicha vem num pedaço de papel que lembra mais um jornal. Aí você pega um pouco de mostarda e um pão redondo duro que nem pedra que ficam ali no balcão e vai comer sua salsicha no banquinho mais próximo.

O papo e a cerveja estavam bons e acabamos perdendo a hora do trem direto para Uster. Pegamos o outro que vai parando pelo caminho, mas mesmo assim em pouco mais de meia hora estávamos de volta.

Amanhã vou explorar Uster!

Comentários pós-viagem:

- Para saber mais sobre o cisne maluco, clique aqui.

- Viajar bem acompanhado é ótimo. Mas sozinho também tem suas vantagens. Nem todo mundo tem paciência de andar sem destino por uma cidade desconhecida. E definitivamente ninguém teria paciência de ficar lendo filosofia junto comigo nas margens do rio Limmat!

- Guarde seus tickets de trem. Eles servem para andar durante o dia no excelente sistema de bondes de Zürich. Só soube quando o meu já tinha ido pro lixo.

- E mais uma vez, não esqueçam: Cuidado com os cisnes!

7 de agosto de 2009

Fragilidades

É estranho como conhecemos as pessoas nessa blogosfera... É inegável que, por mais anônimos que sejam os autores, por mais impessoais que sejam os textos, aos poucos vamos tendo contato com os mais diferentes tipos de pessoas.

Passamos a frequentar blogs que nos emocionam. A visitar aqueles que trazem sempre textos inspiradores. Perdemos a noção do tempo lendo as histórias que nos fazem rir. Esperamos ansiosos o desfecho de uma situação narrada nas semanas anteriores.

E assim vamos nos conhecendo e nos relacionando... à distância e através apenas de palavras numa tela. Mas muitas vezes sabendo mais uns dos outros do que até mesmo as pessoas que estão do nosso lado.

Como eu já disse antes, o EntreTrintas me inspirou a começar a blogar. A Gisele foi minha primeira leitora. Me deixou recados cheios de entusiasmo quando o que eu mais precisava era mesmo de estímulos para não desanimar. E no entanto jamais a vi. Nunca conheci seu rosto, nunca ouvi sua voz... E mesmo assim sentia como se a conhecesse. Como se fosse uma velha amiga, presente mesmo que distante.

Mas, como diz a música, a vida é mesmo coisa muito frágil. Um acidente de carro levou a Gisele. A primeira sensação foi de choque. Reli o texto para ver se realmente eu havia entendido certo. Depois me bateu uma tristeza pelo súbito e prematuro fim da vida de uma pessoa alegre e que parecia estar curtindo um momento super feliz.

Por fim fiquei triste por perceber a fragilidade das relações que temos aqui. Quantas pessoas aqui, das quais aprendi a gostar, são realmente próximas? Com quem eu ainda conseguiria manter contato se por alguma razão o google resolvesse encerrar suas atividades?

Percebi que são poucas. Gostaria que não fosse assim, mesmo sabendo que paradoxalmente para muitos é a distância que permite a proximidade. Mesmo assim eu gostaria de poder dar um abraço forte em cada um de vocês.

Volto a citar o Juan Antonio:

Life is short. Life is dull. Life is full of pain. And this is a chance for something special.

Portanto: Façam algo especial. A vida é curta e frágil. Aproveitem e abracem as pessoas que vocês gostam. E sintam-se abraçados por mim...

नमस्ते

6 de agosto de 2009

Síndrome de sniper


Um sniper é, antes de tudo, um observador. São tantas variáveis que devem ser levadas em conta para cumprir sua missão, que ele passa grande parte do tempo observando.

Ele deve sentir o ambiente. Saber onde se posicionar. Reconhecer as possíveis rotas de fuga. Deve sentir o vento, sua direção e intensidade. Deve calcular as distâncias, a influência da gravidade, o efeito Coriolis.

Ele é um solitário. Atua isolado. Toma suas próprias decisões. Falhando ou sendo bem sucedido, não há ninguém ao seu lado quando ele decide agir.

O sniper sabe que não pode errar. Precisão é extremamente necessária: one shot, one kill. E portanto também é importante ter controle do tempo: antever os movimentos do alvo, ritmar a respiração, mascarar o som e, no momento exato, disparar.

Seus alvos devem ser escolhidos com cuidado. Não se pode desperdiçar um disparo com o que não lhe parece relevante. Um sniper nunca vai dizimar um pelotão, ele vai derrubar seu comandante.

Ele não é um exército de um homem só. Não causa estrago e destruição. Não é um herói. Ele só dispara para acertar. E então furtivamente sai do campo. Ou se desloca para um novo ponto, uma nova missão.

Acho que tenho síndrome de sniper.